quarta-feira, 29 de março de 2017

RELATO DE DE OPERAÇÕES EM ZEMBA EM 1972

A OPERAÇÃO MAIS ARRISCADA

A história que vou contar, e que é absolutamente verdadeira, aconteceu em fevereiro de 1973. O capitão da minha companhia tinha-se ido embora e o oficial que o substituiu (o alferes miliciano Arrifana) estava ausente em gozo de licença anual. Encontrava-me eu a comandar a companhia.
Para esse mês de fevereiro de 1973 estava planeada uma operação grande (não sei se era a nível de batalhão ou não, mas devia ser, dada a importância do objetivo) que envolvia duas companhias (a minha e uma outra), com dois grupos de combate cada uma, operação esta cujo comando foi atribuído ao capitão da outra companhia. O objetivo da operação consistia no assalto e destruição de uma base da UPA/FNLA, a base de Quindembe, a que frequentemente, mas erradamente, se chamava base de Quicunzo. Erradamente porquê? Porque não só a base ficava a dezenas e dezenas de quilómetros do Quicunzo propriamente dito (que se situava entre Santa Eulália e Mucondo), como o nome Quicunzo já estava atribuído a um acampamento de população civil afeta à UPA/FNLA, que vivia na mata e era originária da povoação referida. Julgo que o nome da região onde se situava o quartel que deveríamos atacar era Quindembe e por isso lhe chamo Quindembe. A região em causa ficava no extremo noroeste da área da responsabilidade da companhia de Zemba e a sul de Quipedro. Quipedro, por sua vez, era uma localidade situada já no subsetor de Nambuangongo, onde estava aquartelada uma companhia independente.
O quartel da guerrilha que nós devíamos atacar não era um quartel qualquer. Era uma "central", uma das bases mais importantes da UPA/FNLA. Hierarquicamente acima de uma "central", só havia a própria sede da UPA/FNLA, instalada em Kinkuzu (não confundir com Quicunzo), nos arredores de Kinshasa, na então chamada República do Zaire. As "centrais", portanto, eram as bases de estatuto mais elevado que a UPA/FNLA tinha no interior de Angola. O comandante da "central" que nós deveríamos atacar era um indivíduo de apelido Carvalho, a quem chamavam "homem das barbas" e de quem o povo não gostava, por ser excessivamente severo na aplicação de castigos, segundo me contaram.
Tendo tomado conhecimento de que eu iria participar nessa operação, procurei informar-me e preparar-me para ela, pois no caso de acontecer algum azar ao capitão, quem passaria a comandar seria eu. Convinha que eu estivesse minimamente preparado para uma tal eventualidade. Para tal fim, consultei mapas, no sentido de determinar possíveis rotas de aproximação ao objetivo e de retirada, e fui ao gabinete do comandante da minha companhia (que naquela altura era provisoriamente o meu próprio gabinete) para consultar os relatórios de anteriores operações que tivessem tido lugar na região de Quindembe.
Numa estante existente no gabinete do comandante da companhia havia uns quantos relatórios antigos, que descreviam os factos passados durante operações que tinham sido efetuadas pelas companhias que nos precederam em Zemba. Todos estes relatórios, sem uma única exceção, caracterizavam-se por uma grande objetividade, sobriedade e honestidade, relatando os fracassos tanto como os êxitos, com igual destaque. Mesmo os relatórios que tinham sido escritos por capitães do quadro permanente tinham esta característica que, aliás, era exatamente a mesma que apresentavam os relatórios da minha própria companhia, incluindo os que eu mesmo escrevi. Ainda que ninguém, ao nível do comando do batalhão, acreditasse nos relatórios de operações que escrevíamos, o que é facto é que procuramos sempre contar a verdade, descrevendo o que tinha realmente acontecido durante as operações que comandamos. Nós não estávamos à espera de ganhar medalhas naquela guerra, não tencionávamos "meter o chico" (só o alferes Marques é que "meteu", mas ele não era de Zemba e de qualquer modo deve ter comandado poucas operações), nem ansiávamos receber beijinhos e abraços do Américo Tomaz no 10 de Junho. Não tínhamos razão nenhuma para mentir e NÃO MENTÍAMOS.
Como ia dizendo, procurei no gabinete do comandante da minha companhia relatórios escritos sobre operações que tivessem ocorrido em Quindembe. Para minha surpresa, só encontrei um relatório, o qual se referia a uma operação ocorrida muito pouco tempo antes da nossa chegada a Zemba e que tinha sido realizada pelos comandos. O relatório tinha sido escrito pelo capitão dos comandos que conduziu a operação. Li o texto com grande interesse e, logo desde o início, fiquei muito surpreendido pelo tom épico em que ele estava escrito. No relatório, o capitão dos comandos dizia que as suas forças tinham feito trinta por uma linha, mataram que se fartaram, destruíram tudo e mais alguma coisa, arrasaram a base de Quindembe e regressaram a Luanda cobertos de glória. Apesar do tom em que o relatório estava escrito, que destoava de forma gritante com o de todos os outros relatórios existentes no gabinete, eu acreditei nele. Não tinha razões nenhumas para não acreditar. Atribuí o tom épico do relatório à proverbial basófia dos comandos.
O guia da operação que íamos realizar ia ser um homem chamado Eusébio. Falei com ele. O Eusébio era o melhor guia que nós podíamos ter para uma operação como aquela. Muito pequeno de corpo, mas extraordinariamente destemido, o Eusébio não só conhecia a região como a palma das suas mãos, mas também percebia de guerrilha, sabia como ninguém como atuava a UPA/FNLA e até tinha conhecido pessoalmente o comandante da base de Quindembe, o já referido Carvalho, o "homem das barbas". Disse-me o Eusébio, entre outras coisas, que estava disposto a levar-nos ao objetivo, se era isso o que nós queríamos, mas que esperássemos porrada depois, porque o "homem das barbas" não era pessoa para se ficar. E garantiu-me, com absoluta certeza, que a base de Quindembe se mantinha de pé e que o "homem das barbas" estava lá. Esta afirmação, feita pelo Eusébio de modo absolutamente categórico, contrariava frontalmente o que estava escrito no relatório do capitão dos comandos. Decidi esquecer o relatório. O que o capitão dos comandos escreveu, não foi o relatório de uma operação; foi um filme.
Antes da operação, o capitão que iria comandá-la reuniu-se com os alferes que iriam participar nela, a fim de determinar quem iria fazer o quê. Não me lembro dos pormenores do que se decidiu nessa reunião, mas de um modo resumido direi que se decidiu que o ataque à "central" de Quindembe seria feito pela companhia do capitão, sob o seu comando, e que a minha companhia iria garantir a segurança.
A progressão das nossas tropas em direção ao objetivo processou-se de modo exatamente contrário ao que se faria se fosse eu o comandante da operação. O capitão estava habituado a fazer operações num terreno bastante aberto e plano, coberto por uma vegetação de savana, em que predominava o capim, e apenas interrompida por florestas-galerias que se estendiam ao longo dos rios e linhas de água. Ora o terreno de Zemba era diferente: muito mais montanhoso e coberto por densíssimas e vastas florestas. Se fosse eu a comandar a operação, procuraria fazer com que progredíssemos dentro das florestas, a fim de que o inimigo não nos detetasse e nós pudéssemos atacar de surpresa ou, pelo menos, sem dar tempo ao inimigo para preparar uma defesa e um contra-ataque em tempo útil. Como foi o capitão que comandou a operação, a nossa progressão foi feita tanto quanto possível a descoberto, através do capim, evitando as florestas. Ora uma coluna de homens avançando a descoberto pelo meio do capim, pelas encostas dos montes acima e abaixo, via-se a quilómetros de distância. Em consequência, fomos descobertos quase desde a primeira hora, pelas sentinelas que a UPA/FNLA tinha colocadas no cimo dos montes.
Além da pistola-metralhadora que constituía a sua arma pessoal, cada sentinela da UPA/FNLA tinha consigo uma espingarda de calibre bastante grande, quase sempre uma Mauser ou uma LeeEnfield, para disparar tiros de aviso. Um tiro de uma destas espingardas de repetição era muito mais sonoro e ouvia-se muito mais longe do que um tiro de Beretta. Estes tiros de Mauser ou Lee-Enfield não eram disparados contra nós, mas sim para o ar, a fim de avisar quem estivesse na região de que nos encontrávamos nas proximidades. Um tiro bastava; não era disparado mais do que um. Assim,
sempre que nós ouvíssemos um tiro isolado no decurso de uma operação, ficávamos a saber que tínhamos sido descobertos por uma sentinela.
Durante a nossa progressão em direção a Quindembe, nós fomos ouvindo tiros de aviso das sentinelas da UPA/FNLA. Num dado momento, um tiro à esquerda; dois pares de horas mais tarde, um tiro à direita; depois de mais algumas horas, um tiro à frente; etc. Além de a nossa presença ir sendo revelada a cada tiro, a nossa trajetória ia sendo assinalada, permitindo ao inimigo determinar de onde é que nós vínhamos e para onde é que nós íamos.
Indiferente aos tiros que ia ouvindo, o capitão insistia em fazer-nos progredir por terreno descoberto, à vista de toda a gente. Eu, por minha parte, não me sentia nada confortável com aquela progressão. Enquanto nós avançávamos, os guerrilheiros poderiam estar a preparar-nos uma "comissão de festas" para quando chegássemos ao destino. Eles tinham o tempo todo para o fazer. Só Deus sabia o que nos esperava no fim.
No terceiro dia de operação, o meu grupo de combate avançou à frente de todos, de acordo com o que tinha sido previamente combinado. Ao entardecer, acampamos a cerca de dois quilómetros do objetivo e eu fiquei sem saber se o capitão e a sua companhia tinham vindo atrás de nós ou não. Há muitas horas que eu tinha perdido contacto com ele e o meu rádio conservava-se silencioso como um túmulo, sem resposta de ninguém. A noite caiu. O assalto ao objetivo deveria ter lugar na madrugada seguinte, tudo podia acontecer e eu nem sequer sabia o que iria fazer em concreto nem com quem poderia contar. Sabia que devia fazer proteção à outra companhia, mas como? Sentia-me cada vez mais ansioso à medida que o tempo passava, sem receber notícias do capitão.
A partir de um dado momento, um deslumbrante fenómeno da Natureza fez-me esquecer todas as preocupações e deixou-me maravilhado. Milhares de pirilampos reuniram-se no local onde nos encontrávamos e proporcionaram-nos um espetáculo inesquecível. Um bailado de luzes envolveunos completamente naquela noite. Era como se eu estivesse numa nave espacial, rodeado de estrelas por todos os lados. Eu olhava para a esquerda e para a direita e só via estrelas. Olhava para o chão e só via estrelas. Olhava para o céu e via muitíssimas mais estrelas; não era capaz de distinguir as estrelas verdadeiras dos pirilampos. Na noite do mato africano, as estrelas do céu já são incontáveis, mas naquela noite elas foram muitas mais ainda. Assisti a um espetáculo de sonho.
Provavelmente, aquela noite terá sido a noite em que os pirilampos deviam acasalar. Para meu deslumbramento, eles escolheram o local em que nos encontrávamos para o fazer. Mas a orgia não durou sempre. Pouco a pouco, os pirilampos foram desaparecendo e acabamos por ficar a sós com as verdadeiras estrelas, brilhando num céu escuríssimo, sem luar. Regressei à realidade.
A ansiedade que eu sentia, antes do espetáculo dos pirilampos, transformou-se em angústia depois dele, e esta em pavor. Comecei a imaginar, por exemplo, que naquele preciso momento poderíamos estar a ser cercados por um numeroso grupo de guerrilheiros, que se preparariam para nos atacar a altas horas da noite. Qualquer restolhada que eu ouvisse, feita por um javali, um macaco ou mesmo por um insignificante rato, parecia-me provocado pela movimentação de pessoas à nossa volta. Entrei em pânico e comecei a tremer… de medo! Pela única vez na minha vida, tremi de medo. Tremi de uma forma completamente descontrolada, como se estivesse com a doença de Parkinson. Por mais que tentasse, não conseguia parar de tremer. Tremi durante alguns minutos, até que o tremor parou.
«Felizmente está escuro como breu e ninguém me viu tremer», pensei. «O que julgaria o pessoal se me visse tremer de medo? Perderia a confiança em mim e então é que estaríamos arrumados». Eu não podia mostrar medo diante dos meus subordinados. A coesão e a disciplina do grupo dependiam vitalmente disso. Como ninguém me viu tremer, continuei a representar o papel do alferes valentão,
que sabia sempre o que tinha a fazer, nunca se enganava e raramente tinha dúvidas…
Acordei por volta das quatro horas da madrugada e mandei o pessoal todo levantar-se e preparar-se para partir. Mas não partimos para lado nenhum, porque fiquei sem saber o que fazer, à espera de receber notícias do capitão. Confiava em que, de um momento para o outro, o capitão iria aparecer, para tomar a dianteira com os seus homens e lançar o assalto. Nessa altura eu receberia as instruções sobre o que fazer com o meu pessoal. Se ele não aparecesse, eu esperava que, pelo menos, ele entrasse em contacto comigo via rádio e me desse as suas ordens, nem que fosse para voltar para trás.
O tempo foi-se passando e do capitão… nada. Nem aparecia, nem comunicava pelo rádio, nem coisa nenhuma. As minhas próprias tentativas de entrar em contacto com ele esbarravam num muro de silêncio. Até que amanheceu. E o capitão continuava sumido. Já o sol ia alto, deviam passar já das nove horas, quando decidi que teria que ser eu a tomar em mãos o controle da situação, sem contar com o capitão para nada.
Primeiro dilema que tive que resolver: iríamos avançar até ao objetivo ou recuar? Achei que já era tarde demais para recuarmos. Já tínhamos avançado demais, já estávamos metidos na boca do lobo e eu tinha como garantido que iríamos levar porrada de qualquer maneira, se não fosse na ida, seria no regresso. «Já que chegamos até aqui, vamos até ao fim e seja o que Deus quiser», decidi. Chamei o guia, dei-lhe conta da minha decisão e ele concordou em nos conduzir ao objetivo. O Eusébio era um homem valente e isso verificou-se logo a seguir.
Andamos poucas dezenas de metros quando nos apareceu uma bifurcação. Dois trilhos apareceram diante de nós: à esquerda, um trilho muito desgastado, mas sem pegadas; à direita, um trilho quase sem desgaste e com numerosas marcas de ter sido utilizado recentemente. Perguntei ao Eusébio que trilhos eram aqueles. Respondeu-me que ambos os trilhos conduziam diretamente ao quartel de Quindembe. O da esquerda era um trilho antigo, que deixou de ser usado quando abriram o da direita. Para que não pudesse ser usado por mais ninguém (nomeadamente pelas nossas tropas), os guerrilheiros minaram-no. O trilho da direita não tinha minas, mas podíamos ter a certeza absoluta de que os guerrilheiros estavam lá emboscados, à nossa espera. Se quiséssemos chegar à base, disse ele, seria melhor seguirmos pelo trilho minado.
«E agora? O que é que eu faço?», perguntei-me, angustiado. «Isto equivale a escolher de que maneira é que quero morrer». Refleti mais um pouco e achei que, se o Eusébio (que era o guia e como tal seguiria à frente de todos) achava que conseguia chegar são e salvo ao fim do trilho minado, então nós também seríamos capazes de conseguir. Tomei então aquela que foi, talvez, a decisão mais difícil e arriscada de toda a minha vida: avançar pelo trilho minado.
Avisei o meu pessoal que iríamos avançar por um trilho minado, esperando uma recusa, pelo menos uma resistência, talvez mesmo uma revolta aberta. Esperei que alguém me gritasse: «Vai tu!» E de facto eu também ia, como não podia deixar de ser. Mas para minha admiração, ninguém contestou a minha decisão, ninguém gritou, ninguém protestou, ninguém resistiu, ninguém resmungou, ninguém se lamentou. E no entanto, numa operação anterior, um camarada já tinha ficado mutilado por ter pisado uma mina. Fiz inúmeras recomendações sobre a forma como deveriam progredir, para evitarem pisar uma mina, e quando dei a ordem para avançar, todos avançaram imediatamente, sem a mais pequena hesitação. Todos, absolutamente todos, soldados, cabos e furriéis; europeus e africanos; todos sem distinção. Todos cerraram os dentes e fizeram-se ao caminho. O furriel Macedo foi o primeiro a avançar.
Senti um orgulho imenso nos meus homens. Quando eu digo que comandei o melhor grupo de combate do mundo, estou mesmo convencido disso. Porque aqueles rapazes tinham-se sentido
humilhados nos primeiros tempos, quando o batalhão se formou em Évora, no caso dos europeus, e quando os africanos foram também incorporados na companhia, no Grafanil. Eles tinham-se sentido humilhados porque nenhum alferes aceitou incluí-los nos seus pelotões, exceto eu, por os considerarem imprestáveis. Nenhum outro alferes os quis. Só eu é que aceitei comandá-los. E ali iam os que tinham sido considerados o refugo da companhia, que ninguém quis porque eram considerados básicos demais, avançando por um caminho que tinha sido minado, lenta mas decididamente, dando uma extraordinária lição de coragem e de determinação! Como as aparências enganam!
Eu também avancei, tomando o lugar que costumava ocupar durante as progressões, que era o quinto ou o sexto da coluna. Eu não podia tomar outro lugar, mais para trás, por muito que o desejasse. Se o fizesse, mostraria medo perante os meus subordinados, que perderiam a sua confiança em mim. Ocupei, com toda a certeza, o sexto lugar. Avancei pé ante pé, com suores frios a escorrerem-me pela cara abaixo, contando os segundos que me pareciam séculos. Procurava colocar os pés em sítios onde não pudesse haver minas. Rocha nua era coisa que não havia naquele trilho, mas havia numerosas raízes, bem duras e bem sólidas, das muitas e grandes árvores que ladeavam o caminho. O problema era que as raízes não eram planas, mas sim muito abauladas, proporcionando um equilíbrio extremamente instável. A qualquer momento, eu podia desequilibrarme e colocar inadvertidamente um pé num local onde estivesse uma mina escondida. Receava também, cheio de angústia, ouvir a qualquer momento uma explosão provocada por um dos meus subordinados, pelos mesmos motivos, mas tal não aconteceu. Se tivesse acontecido, nunca eu me perdoaria, por mais anos que vivesse, porque fui eu que dei a ordem para avançar por aquele trilho. Nunca mais eu teria paz de espírito para o resto da minha vida.
A certa altura, apareceu no meio do caminho uma cratera de uma mina rebentada, que tinha sido acionada por um animal qualquer. Era a prova de que aquele trilho tinha sido mesmo minado. Aquela mina já tinha rebentado, mas quantas mais haveria naquele trilho, escondidas, à espera de que alguém lhe pusesse um pé em cima? Estranhamente, ao ver o buraco da mina, senti um fugaz momento de alívio e pensei: «Posso pôr os pés com toda a confiança dentro deste buraco, porque aqui já não há mina nenhuma. A que cá estava já rebentou». E fiquei parado uns milésimos de segundo dentro da cratera, saboreando aquele instante de passageira segurança e ganhando coragem para continuar a seguir em frente. Apareceram-nos mais três ou quatro buracos de minas rebentadas por animais, no caminho que parecia não ter fim. Eu envelheci dezenas de anos em cada minuto que passava.
À medida que íamos avançando, a floresta que nos rodeava foi-se tornando cada vez mais densa. A partir de certa altura, não nos apareceram mais crateras de minas, mas em contrapartida começaram a aparecer-nos bocas-de-lobo. Quatro ou cinco bocas-de-lobo no total. Com estas é que eu não contava, porque o guia não me tinha falado nelas.
Quando os primeiros militares que tinham sido mobilizados para Angola, no princípio da guerra, regressaram no fim da sua comissão, eles falaram na existência de bocas-de-lobo nos caminhos, feitas pela UPA/FNLA. Mas depois disso, nunca mais eu voltei a ouvir falar em bocas-de-lobo. Contudo, mais de dez anos depois do início da guerra, ali estavam elas, as bocas-de-lobo, diante de mim. Afinal a UPA/FNLA ainda as fazia, embora já ninguém falasse nelas.
«Mas afinal que coisas eram essas a que davam o nome de bocas-de-lobo?», poder-se-á perguntar. As bocas-de-lobo eram armadilhas que consistiam num buraco escavado no chão, com cerca de um metro e meio de profundidade, no fundo do qual havia paus aguçados, espetados verticalmente e com a ponta afiada virada para cima. O buraco era tapado por ramos e folhas, de tal maneira que a sua existência naquele local ficasse disfarçada. Alguma pessoa que inadvertidamente caísse no buraco morria espetada nos paus aguçados lá no fundo. Devia ter uma morte horrível.
Por muitos arrepios que a visão de uma boca-de-lobo nos causasse, as que nos apareceram não constituíram grande motivo de preocupação, felizmente. Foram até muito fáceis de detetar. Duas delas, salvo erro, estavam mesmo destapadas, pois a cobertura de folhas e ramos tinha desabado, deixando o buraco a descoberto. As restantes também foram muito fáceis de descobrir. Com efeito, o chão da selva africana, como era aquela que nós atravessávamos, estava permanentemente húmido ou mesmo molhado. As folhas mortas que se amontoavam no chão apodreciam. Mas as folhas e os ramos que se encontravam a tapar uma boca-de-lobo não apodreciam, porque não estavam sobre solo húmido. Por baixo delas só havia ar, por causa do buraco, e as folhas e os ramos secavam, em vez de apodrecerem. Sempre que à nossa frente nos aparecia uma mancha de folhas secas no meio do caminho, não havia que enganar: ali estava uma boca-de-lobo. E estava mesmo. Por isso, ninguém caiu numa boca-de-lobo nem correu o risco de cair. Note-se que eu não estou a descrever isto porque alguém, que esteve em Angola no início da guerra, me contou. Estou a descrever o que eu mesmo vi com os meus próprios olhos. De resto, já tinha visto uma ou duas bocas-de-lobo em operações anteriores.
Quando já estávamos muito perto da base, talvez a uns meros cem metros de distância, o trilho por onde seguíamos reuniu-se ao outro que dele se tinha bifurcado. Mais ou menos nesse local de reencontro dos trilhos havia um posto de observação da UPA/FNLA, o qual se encontrava vazio. O que se via desse posto de observação deixou-me arrepiado. Nós estávamos no cimo de um monte e lá em baixo encontrava-se… o destacamento do Lué, onde estava um pelotão da Companhia de Caçadores 104/73, de Quipedro, fazendo proteção a uma ponte sobre o rio do mesmo nome e cuja existência eu desconhecia. Daquele posto de observação do inimigo via-se e ouvia-se (claramente visto e claramente ouvido) tudo o que se passava no pequeno quartel do Lué. Viam-se as edificações, viam-se pessoas movimentando-se, enfim, via-se TUDO e ouvia-se TUDO o que lá se passava. A UPA/FNLA tinha ali um observatório privilegiado sobre aquele destacamento. Se quisessem atacar o Lué, fazer uma emboscada, sabotar a ponte ou colocar uma mina na picada, os guerrilheiros só tinham que descer a encosta. Mais nada. Em menos de uma hora punham-se no Lué. Impressionante!
Depois de passarmos pelo posto de observação da UPA/FNLA que acabo de referir, chegamos finalmente ao nosso objetivo. Ali estava ela diante de mim, a base “central” de Quindembe, também ela vazia e silenciosa como o posto de observação. A base de guerrilheiros que o capitão dos comandos tinha dito no seu relatório que tinha sido destruída e reduzida a cinzas estava à minha frente… intacta!
No preciso momento em que me preparava para entrar na base, fui chamado pelo meu soldado de transmissões, dizendo-me que o capitão, que devia ter comandado a operação naquela fase mas não comandou, me chamava pelo rádio. Atendi o capitão reaparecido, que me disse:
«O comandante da operação sou eu e sou eu que vou entrar primeiro no objetivo. Monta a segurança para que eu possa entrar».
Eu estava psicologicamente esgotado e já não tinha forças para contestar a ordem do capitão. Limitei-me a cumprir. Quem entrou primeiro na base foi ele, triunfalmente e à frente dos seus homens. Só mais tarde entrei eu com os meus.
Quando a minha companhia entrou, o guia, que continuava comigo, exclamou entusiasmado:
«Esta é a primeira vez, desde o princípio da “confusão” [isto é, da guerra], que a tropa entra aqui dentro. Nunca tropa nenhuma entrou aqui antes».
«Então… E os comandos?», perguntou alguém.
O guia riu-se e respondeu:
«Os comandos não vieram aqui. Eu também fui guia deles e quis trazê-los cá, mas o capitão deles não aceitou. O que os comandos atacaram foi um acampamento que há ali para baixo. O povo que estava no acampamento foi apanhado de surpresa e fugiu apavorado. Na confusão da fuga, uma criança pequena ficou esquecida para trás. Ficou a chorar sozinha no meio do acampamento. O próprio capitão dos comandos matou-a».
O guia acrescentou alguns comentários muito pouco abonatórios do capitão dos comandos, que me abstenho aqui de reproduzir.
Quando entramos finalmente na “central”, já passava da hora do almoço. A fome apertava e tivemos o descaramento de comer a nossa ração de combate mesmo dentro da própria base do inimigo.
Como era a base do inimigo? A base “central” de Quindembe apresentava as características que eram comuns às restantes bases da UPA/FNLA. A única diferença em relação às outras consistia em ser consideravelmente maior do que elas.
Para começar, poderei dizer que a base de Quindembe era um quartel de guerrilheiros e não um acampamento. Logo, não tinha população civil vivendo no seu interior; os acampamentos é que tinham. Se na base de Quindembe houvesse civis, eu não investiria contra ela. Por uma questão de consciência, a minha companhia procurava sempre que possível evitar envolver a população civil na guerra, não atacando os seus acampamentos nem destruindo as suas lavras.
Um aspeto que as bases da guerrilha tinham em comum com os acampamentos consistia no facto de se encontrarem bem escondidas no meio da floresta. Quem estivesse dentro delas e olhasse para cima, não veria sequer uma nesga de céu. Só veria as copas das árvores, que impediam que algum avião que passasse por cima avistasse o que estava cá em baixo.
As bases eram constituídas por um conjunto de cubatas sólidas e bem construídas (e grandes, no caso de Quindembe), dispostas de forma ordenada e regular, de modo a que o conjunto do quartel tomasse a forma de um retângulo ou de um quadrado. No meio, um espaço relativamente amplo e tanto quanto possível desimpedido fazia de parada do quartel. Em rigor, não era bem uma parada, pois havia algumas árvores de grande porte pelo meio, para que com as suas copas tapassem a vista aos aviões. Mas dava para fazer uma formatura e para que o comandante da base pudesse fazer discursos e alocuções aos seus guerrilheiros.
No meio da “parada” ou a um lado dela encontrava-se o “pau” de bandeira, que na verdade não era um pau, mas uma árvore também. A bandeira da UPA/FNLA não era içada, mas sim dependurada num pau espetado no tronco da árvore, horizontalmente, a uma altura um pouco superior à de um homem. Na base de Quindembe não encontramos bandeira nenhuma, mas numa outra base, aonde fomos numa outra operação, encontramos uma bandeira do movimento suspensa no pau horizontal.
A limpeza e arrumação das bases da UPA/FNLA era notável. Apesar de elas estarem debaixo de árvores (que têm a “mania” de largar folhas), não se via uma só folha no chão. Todo o recinto das bases era mantido impecavelmente varrido. Além disso, havia canteiros, o que era surpreendente, porque o sol nunca chegava lá abaixo e não podiam crescer flores naqueles canteiros. E de facto não cresciam. Mas os canteiros lá estavam, um em volta da árvore que fazia de “pau” de bandeira e outros contornando as cubatas e outras construções que por lá houvesse. Quem diria?
Eu não faço esta descrição porque alguém me tenha contado ou porque eu tenha inventado. Fui eu próprio que vi o que acabei de descrever, com estes que a terra há de comer. Vi mesmo, claramente visto, porque estive lá.
Do ponto de vista do espólio encontrado na base, a operação a Quindembe foi um completo fracasso. Como os guerrilheiros tinham vindo a seguir a nossa progressão desde o princípio da operação, eles devem ter tido tempo de sobra para evacuar a base e retirar de lá as armas, munições, documentos e tudo o mais que nos pudesse interessar. Só lá deixaram trastes velhos e inúteis, como, por exemplo, uma máquina de escrever estragada. Tantos perigos que corremos e tantos sacrifícios que fizemos, para saírmos de lá de mãos a abanar!
Um possível resultado positivo para nós foi o próprio facto de termos lá entrado. Este feito deve ter tido um efeito psicológico marcante nos guerrilheiros. Desde aquele dia, eles deixaram de poder contar com um lugar seguro onde se pudessem refugiar, num raio de muitos quilómetros. A partir daquele momento, já nem na sua própria “central” eles poderiam sentir-se seguros, porque as nossas tropas também já lá podiam chegar. O Quindembe deixou de ser um “santuário” para a UPA/FNLA.
Quando saímos da base para regressarmos ao nosso quartel, pegamos fogo àquilo tudo, como é evidente. A operação estava terminada e havia que regressar depressa a Zemba, pois as nossas rações de combate estavam nas últimas. Por isso, o capitão decidiu, contra o que recomendava a mais elementar prudência, tomar o caminho mais direto, mais rápido e mais óbvio. Resultado: caímos numa emboscada. A emboscada aconteceu perto das ruínas de uma antiga fazenda, a Fazenda José Luís de Sá, e foi muito rija.
Quando estamos debaixo de fogo, nós perdemos a noção do tempo: os segundos parecem-nos dias e os minutos parecem-nos anos. Mesmo assim, atrevo-me a dizer que a emboscada não durou muito tempo. Pelo menos, foi esta a impressão com que fiquei. Com efeito, sem que nada o fizesse prever, a dado momento o inimigo abandonou o campo de batalha e fugiu, deixando-nos sozinhos no terreno. O nosso pessoal foi ao local onde os guerrilheiros estiveram emboscados e encontrou sangue no chão. O inimigo tinha sofrido pelo menos um ferido e terá sido essa a razão pela qual abreviou a emboscada. Nós, por nossa parte, não sofremos baixas. Pensei: «Esta emboscada foi a vingança do “homem das barbas”, por lhe termos dado cabo do quartel». Regressamos a Zemba sem mais novidades.
Ao contrário do que se poderá pensar, a história (absolutamente verdadeira) não acaba aqui. Ela tem um fim terrivelmente trágico. Duas ou três semanas após a nossa operação a Quindembe, um SITREP (“Situation Report”), que era um relatório distribuído semanalmente pelos batalhões, dando conta da evolução da situação militar em Angola, informava que um fornilho, colocado na picada de Quipedro, fez ir pelos ares uma Berliet carregada de militares da companhia local, causando seis mortos e um número de feridos de que não me recordo. Esta é que foi a vingança do “homem das barbas”! Ele vingou-se, não em nós, mas na companhia, mais próxima e mais vulnerável, de Quipedro

3 comentários:

  1. INTRODUÇÃO
    Conjunto de textos escritos por Fernando de Sousa Ribeiro, antigo alferes miliciano da Companhia de Caçadores 3535, do Batalhão de Caçadores 3880, que esteve no norte de Angola entre 1972 e 1974, concretamente em Zemba, na região dos Dembos, e em Ponte do Zádi, Banza Sosso e Malele, na região de Maquela do Zombo, junto à fronteira norte. Estes textos foram originalmente publicados pelo autor na página do seu batalhão no Facebook e sofreram apenas algumas pequenas alterações, com vista a torná-los mais compreensíveis a pessoas estranhas ao batalhão.
    Apesar de relatarem diversos outros factos e situações vividos pelo autor, não se encontram aqui reunidos vários outros textos que também foram publicados no Facebook, porque foram escritos em jeito de comentários ou no âmbito de diálogos havidos com antigos camaradas. Estes outros textos estão muito fragmentados e requerem uma edição muito mais profunda por parte do autor, no sentido de os tornar minimamente estruturados e legíveis. Por isso, eles não estão presentes neste conjunto.
    Os factos relatados nos textos aqui reunidos são rigorosamente verdadeiros, tanto quanto a memória do seu autor lho permitiu. Nada do que aqui está foi inventado.

    ResponderEliminar
  2. Só hoje, 50 anos depois vim a saber o que eram as bocas-de-lobo,!! li todos os textos do ex. alferes Fernando de Sousa Ribeiro que o nosso amigo e ex.colega Catalo nos fez chegar o que gostei imenso, pois antes do ex.alferes Ribeiro, precisamente no ano 68-69, pisamos esses mesmos trilhos, embora eu pertencesse ao Mucondo companhia 2310, mas as zonas de operações eram as mesmas, fizemos operações no catoca, onde tivemos um morto e um ferido, embora não na mesma operação, numa dessas operações não me recordo se era nessa zona ou em qual seria, íamos muito bem num trilho muito seguido numa zona de grandes árvores o 3º pelotão do ex. alferes Rocha e sem que ninguém se apercebesse de nada mexido a um soldado que cai nessa boca-de-lobo, o que ia a seguir vai para proteger o colega- cai também com algum espaço um do outro, só que ao cairem a arma ficou atravessada e não chegaram a cair ao fundo do buraco, depois conseguimos tira-los sem nada sofrer a não ser o susto, se tinha os paus aguçados em baixo ou não! não cheguei a ver, mas era tal qual como o ex.alferes Ribeiro explica, um buraco na terra mais ou menos com 2 metros de comprido fundura também aproximada a isso com uma largura aproximada a 0,50 centimetros, coberto com folhas tal qual como estava o trilho, a volta não se via nada mexido nem terra nem outra coisa, o que é que nós pensamos uns para com os outros, mesmo incluindo o alferes Rocha, que aquilo seria uma ratoeira para apanharem caça, pois uma pacaça ou qualquer outra espécie que caísse ali, não saia !! Hoje venho a saber que essas ratoeiras eram para nós e que tinham por nome bocas-de-lobo..

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado meu caro José Joaquim Afonso. O meu amigo, como sempre, está em cima do acontecimento. Obrigado pelo seu apoio.

      Eliminar